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Publicado
em Terça-feira, Março 23rd, 2010 e guardado sob Sinais.
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Manuel Ferreira Patrício - 23 de Março de 2010
A humanidade investe pouco na Educação. Basta olharmos à nossa volta para não termos dúvidas sobre esse facto.
Comecemos pela sociedade portuguesa. Os canais de televisão disponíveis diariamente poderiam desempenhar um papel extraordinário de desenvolvimento educativo e cultural do nosso povo. Não o fazem. O tempo de transmissão é pode dizer-se que desbaratado com telenovelas, desporto (hegemonicamente, futebol!…), filmes em que predomina a violência e o sexo, publicidade. Esta, a publicidade, mostra iniludivelmente que a indústria e o comércio é que são o suporte e o comando de todo o processo comunicacional televisivo. É, com efeito, a publicidade que paga tudo aquilo. O que acontece com a televisão é similar ao que acontece com os outros meios de comunicação social. No fundo, quem paga tudo é o consumidor dos produtos servidos pelos media.
Ora a substância que o consumidor consome tem um - e quase só um - efeito: a alienação. É uma droga psíquica. Assim, o que devia servir para aumentar o conhecimento e com ele potenciar a consciência humana,provoca o entorpecimento desta, desestrutura-a; o que devia fortalecer a objectividade da visão e das condições de acção hipnotiza e anestesia a consciência; o que devia alimentar a consciência ética baralha e degrada o sentido natural dos valores que é próprio do homem saudável; o que devia aguçar a experiência do real suga o sujeito humano para o buraco negro do virtual; o que devia produzir energia psíquica gera a decadência, instaura este mundo triste e pálido de niilismo em que a juventude se desloca como uma processão de espectros, sem consistência vital nenhuma, fraudes aparentemente vivas mas realmente mortas. Nunca a humanidade dispôs de um tão poderoso e diversificado conjunto de meios para se educar e cultivar. E nunca o aparelho real da educação e cultura foi tão destruidor da humanidade do homem.
Poderemos afirmar que são três as grandes finalidades da Educação: a) a instrução; b) a formação da personalidade; c) a cultura. Três finalidades que exprimem três planos de um único e o mesmo processo: a formação do homem na suahumanitas. A instrução corresponde ao enriquecimento do homem em puro conhecimento, teórico e prático. A formação da personalidade corresponde à construção da qualidade de pessoa de cada homem, em termos pessoais e em termos de humanidade, construção que é na verdade uma arquitectura axiológica, um edifício de valores. A cultura corresponde ao processo e ao produto de criação material e espiritual da humanidade, de fruição, partilha e transmissão desse legado. Essas três finalidades podem ser pervertidas ou diabolizadas. O que é luz pode degenerar em treva; o que é de si benigno pode tornar-se maligno. Ou seja: a cultura pode sofrer um processo de degenerescência que a transforma monstruosamente em anti-cultura.
Parece que a humanidade atravessa um momento de degenerescência instrutiva, educativa e cultural. A instrução serve exclusivamente interesses utilitários; a educação como processo de personalização desfigura hedonística e animalescamente a personalidade do homem; a cultura morre asfixiada às mãos da indústria e do comércio, sendo ela mesma cada vez mais apenas um produto que se vende e se compra no mercado global, absolutamente dominado pelo dinheiro.
Já não há propriamente educandos, há agora apenas instruendos, formandos, actores-mediadores. Chega a parecer que a educação é hoje apenas uma saudade dos mais velhos. A nova geração julga que sabe do que se trata, mas nós sabemos que, globalmente falando, realmente não sabe, não pode aperceber-se.
A crise actual da Educação, à escala planetária no que toca ao mundo ocidental e afins, é de uma gravidade perturbadora.
Subscrevo! Estamos, de facto, perante um avassalador problema civilizacional!
Estou muito céptico quanto ao futuro…